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Jerusalém

Jerusalém simboliza o labirinto, ressoa com encantamentos, vibra com brilhos deslumbrantes, às vezes sombrios. Despertando a esperança e a imaginação, sua dimensão sagrada confronta os tormentos da história.

Espírito do lugar, momentos de vida; Altair Alcântara oferece um travelogue, um diário de viagem em imagens que lembra uma rihla*, uma peregrinação contemporânea.

Between Light and Dark

Entre sombra e luz

Ao amanhecer, como uma conhecença na encruzilhada dos ventos e dos oceanos, a cúpula dourada de Jerusalém se oferece à contemplação e irradia a Terra Santa. Essa visão marcou gerações de peregrinos muçulmanos que chegavam dos grandes desertos do sudeste pelo antigo caminho de Jericó, depois de terem homenageado o profeta Moisés, cujo mausoléu está localizado nas proximidades do Mar Morto. Ao pé das muralhas de Solimão, o Magnífico, e do Portão da Misericórdia, milhões de tumbas estão espalhadas por várias camadas da história. No fundo do Vale do Cédron, encontra-se o Poço de Jó, cujo transbordamento cíclico era um sinal de prosperidade e ocasião para a “Festa da Água”, celebrada pelas diferentes comunidades.

Hoje, a Cidade Velha continua predominantemente árabe, mas os residentes do bairro popular de Silwan enfrentam poderosas organizações de colonos israelenses que se instalam em torno da “Cidade de David”, um parque arqueológico de projetos controversos. Entre sombra e luz, a Cidade Santa está no centro das aflições do nosso mundo.

The Dome of the Rock

A Cúpula da Rocha

Jerusalém é o “coração pulsante das religiões do Livro”. O Nobre Santuário (Haram al-Sharif) se estende sobre o Monte Moriah (Har Moriyah) consagrado pelos profetas. Este local é o centro nevrálgico de uma esperança universal, porque representa “ao mesmo tempo um santuário das origens, um fim da experiência mística e um local de realizações escatológicas” (Pierre Lory). Para ter acesso à plataforma superior e à Cúpula da Rocha (Qubbat as-Sakhra), deve-se passar por baixo dos arcos que simbolizam as “Balanças”, onde as almas serão julgadas no Fim dos Tempos.

No ano 637 da era comum, o califa Omar ibne Alcatabe, horrorizado com o abandono do local sagrado, limpou-o e estabeleceu nele o que mais tarde se tornaria o Nobre Santuário. A mesquita de al-Aqsa seria construída exatamente no eixo da Rocha, em direção da Caaba. O edifício octogonal da era omíada que abriga a Rocha Sagrada é a obra-prima mais antiga da civilização islâmica. Embora seja muito provável que, originalmente, o verde dominasse as decorações, o azul é de cerâmica otomana e o revestimento dourado da cúpula é mais recente. Milhões de muçulmanos por todo o mundo sonham em poder orar aqui. Este terceiro local mais sagrado do Islã é também glorificado como um dos símbolos da Palestina. Mulheres tiram fotos de mensagens curtas rabiscadas em folhas de cadernos escolares, bênçãos que são fotografadas e enviadas de imediato a irmãos ou amigos a quem é impossível o acesso a Jerusalém.

Cosmic Mirror

Espelho cósmico

A composição da Cúpula da Rocha tem como base um octógono, do qual quatro portas se abrem aos quatro pontos cardeais e formam um quadrilátero, e também sobre um tambor circular, sobre o qual repousa a cúpula: uma harmonia de relações matemáticas e um simbolismo cósmico, onde a terra seria representada pelo quadrado e a esfera representaria o céu. Folhas de acanto, de vinhas, árvores e plantas imaginárias, os padrões de mosaico ornamental de inspiração bizantina simbolizariam o jardim onde Salomão conversava com os pássaros. As caligrafias fazem referência à infinitude e unidade de Deus, bem como aos profetas. Uma pequena edícula abriga a aura do “Relâmpago” (Buraque). Neste local, emana da rocha um maravilhoso perfume, memória da Ascensão do Profeta do Islã através dos Sete Céus.

Neste lugar absolutamente único, tudo se entrega à beleza e a uma plenitude que envolve o crente, tal qual o grande viajante magrebino Ibn Battûta, que descreve a Cúpula da Rocha no século 8 da Hégira (século 14 da era comum) como “uma arquitetura extraordinária, cuja perfeição e singularidade residem em sua forma surpreendente. Decorados com mosaicos e mármore da melhor qualidade, tanto o exterior como o interior desafiam qualquer descrição”.

Well of Souls

Poço das Almas

Caverna sob a Rocha Sagrada (Sakhrat Allah, Rocha de Deus): antro dos Espíritos, matriz do mundo e nascente dos rios do Jardim do Éden (Jannah).

Night of Destiny

Noite do Destino

Aquelas e aqueles que têm a sorte de orar no Nobre Santuário estimam este momento excepcional com intensa gratidão e desfrutam uma certa graça. Mais de 300.000 participam de grandes orações, como a da Noite do Destino.

Musician

Músico

As noites podem ser sombrias em Jerusalém. Exceto em certas ocasiões, por exemplo quando o jovem e respeitado muezim da mesquita al-Aqsa se junta a um grupo de músicos tradicionais para darem pequenos concertos de bairro. O público se deleita com a sua voz refinada de longo fôlego, seu domínio das modulações e suas sequências rítmicas. Seus encantamentos são acompanhados por diferentes percussões. No início, as melodias são lentas e sóbrias, mas gradualmente as cadências aumentam.

Com o rosto branco, como se coberto de pó, um “anfião” se destaca por sua elegância com o tamborim (riqq). Ele está focado principalmente no tempo e nos acordes. Cada músico tem uma margem de liberdade para improvisar em relação à atuação do grupo. A simbiose, portanto, conquista toda a plateia. Essa reage expressando sua alegria por meio de interjeições entusiasmadas. Um êxtase comunicativo toma conta dos corpos. No auge da performance, a exploração vai além da experiência estética e emocional para impactar o melhor dos nafs, a psique ou a alma do espectador capaz de entrar então num estado de êxtase espiritual ligado ao Tawhid, o reconhecimento da Unicidade. Um anjo passa por cima do artista, totalmente envolvido em seu jogo para tentar atingir A nota.

The Wall

O Muro

O Templo construído por Salomão foi destruído por Nabucodonosor da Babilônia, em 586 a.C., e aquele que Herodes construiu posteriormente foi destruído em 70, pelo romano Tito. Os Judeus foram exilados várias vezes e só podiam orar fora da cidade, como no Monte das Oliveiras. Os Persas, os Árabes e os Turcos lhes permitiriam retornar para viver em Jerusalém, e o muro gradualmente se tornaria um local de culto.

O nome “Muro das Lamentações” vem do árabe “Hâ’it al-Mabka”, mais tarde popularizado pelos orientalistas. O muro era também chamado de “Hâ’it al-Burâq”, em referência à criatura celestial do profeta Maomé. Há inclusive uma mesquita Buraque do outro lado do muro. Durante a guerra de 1967, o exército israelense destruiu em questão de horas o bairro magrebino, cuja população era de setecentos habitantes, para construir uma grande plaza. O Muro Ocidental é conhecido, hoje em dia, simplesmente como “Kotel” (Muro). Considerando que este é o lugar mais próximo do Kodesh Ha’Kodashim (Santo dos Santos), Judeus praticantes chegam, a toda hora, para orar com fervor. Os visitantes também podem inserir nas fendas do muro seus desejos escritos em pedaços de papel.

Remembering the Ten Words

Em memória das Dez Palavras

Embora os ritos e costumes tenham evoluído desde os tempos talmúdicos, a festa de Pessach (Páscoa) é a melhor ocasião para ouvir as leituras da Hagadá e do Cântico dos Cânticos. A celebração permite sobretudo recordar a Saída dos Hebreus do Egito do Faraó, a sua longa Errância pelo deserto e a Revelação das Dez Palavras (Dez Mandamentos) que Moisés recebeu no Monte Sinai.

Além do aspecto histórico-mítico, cada indivíduo pode dispor da sua própria interpretação espiritual e filosófica do Galút (Exílio) e da Gueulá (Libertação). Mas esta comemoração é também uma questão de transmissão entre gerações. Após a destruição do Primeiro Templo e o exílio na Babilônia, os descendentes das tribos do Reino de Yehuda (Judá, quarto filho de Jacó e Lea), são então chamados de Yehudim (Judeus). A raiz hebraica de “Yehuda” expressa “gratidão a Deus” e se refere ao “eco” ou à “ressonância”. Sendo assim, o Judeu é aquele que pesquisa incessantemente os Textos pela miqra (“convocação”, “leitura”), pela mishná (“estudo”, “repetição”), pelo midrash (“exegese”), aquele que deve constantemente buscar, através dos séculos, o significado e sentido profundo das palavras e das ideias.

The Rabbi's Grave

O sepultamento do rabino

Nascido no final do século 17 no reino Xerifiano do Magrebe, o rabino Chaim ibn Attar é um famoso talmudista e cabalista sefardita que espalhou seu conhecimento de Meknes a Jerusalém, via Livorno. Seus discípulos editaram suas dissertações e comentários, como o Hefetz Hashem (Desejo de Deus, Amsterdã, 1732), Or ha-Hayyim (Luz da Vida, Veneza, 1742), Rishon le-Zion (Primeiro a Sião, Constantinopla, 1750), Peri Toar (Fruta de toda a Beleza, Viena, 1810). Ele está enterrado no grande cemitério do Monte das Oliveiras, em frente ao Portão da Misericórdia. Seu túmulo é constantemente visitado, dia e noite.

The Tomb of Jesus

O túmulo de Jesus

De acordo com o Status quo entre as Igrejas, há séculos, a entrada da basílica é administrada por duas famílias muçulmanas. Uma multidão de peregrinos se aglomera ali, numa atmosfera de confusão e meditação. Podem-se ouvir todas as línguas do mundo. Ouvir rosários em aramaico ou árabe, na penumbra deste insólito santuário de cinzas, toca o coração do viajante. Alguns Muçulmanos chegam para confirmar o seu profundo respeito ao “filho puro” dado a Maria. Cristãos protestantes e Evangelistas preferem ir para o fundo de um jardim, certamente evocativo, mas talvez um pouco bem cuidado demais e localizado fora das atuais muralhas da Cidade Velha.

No centro da vasta rotunda do Santo Sepulcro, a edícula de estilo barroco otomano concentra dois mil anos de uma história fundadora. Seu acesso é regulado por monges gregos, prontos a repelir os devotos. Uma alternância rigorosa permite que Armênios e Franciscanos também celebrem os seus serviços religiosos. Mas o túmulo de Jesus está vazio. Em que outro lugar Ele estaria? Ele ressuscitou! Ele está vivo neste lugar específico como em qualquer outro…

Sublimation

Sublimação

Na hora em que ressoa o “Magnificat” (Cântico da Virgem, Salmo de apelo à justiça), surge, de um canto escuro dos arcanos de Jerusalém, uma silhueta: onde estás Maria Madalena, “apóstola dos apóstolos”, poder gentil, força do Amor?…

The Ascension Footprint

A Pegada da Ascensão

No topo do Monte das Oliveiras está a mesquita/capela da Ascensão, um lugar sagrado compartilhado, que se encontra em Jerusalém, bem como outros, em volta do mar Mediterrâneo. Cristãos se prosternam sobre uma marca do pé de Jesus.

Os Muçulmanos descem aos porões profundos da mesquita para fazer duas (invocações) em memória de Rabia al-Adawiyya, uma grande mística e poeta do século 2 da Hégira (século 8 da era comum) que viveu em Baçorá, cidade localizada no delta do Eufrates e do Tigre, nos confins da Mesopotâmia. Alguns dizem que o sarcófago que se encontra ali é de Rabia al-Badawiya, “a beduína”. A menos que seja o da asceta Pelágia, a sulfurosa e sublime “pérola de Antioquia”. Ou talvez o da profetisa Hulda. Este lugar é, portanto, associado a mulheres excepcionais. A caligrafia cúfica está gravada nele, assim como uma inscrição em grego: “Coragem, Domitila, ninguém é imortal”. Acima do túmulo, uma cisterna permite matar a sede e a sua água tem um sabor particularmente agradável.

The Seventh Angel

O Sétimo Anjo

Em 2015, uma jovem restauradora italiana passou lentamente sua câmera termográfica pelas paredes escuras da nave alta da Igreja da Natividade. Ela identificou uma forma estranha e começou a raspar o gesso, escurecido por séculos pela fuligem das velas. Um rosto radiante emergiu. Um anjo de dois metros e meio de altura foi redescoberto. Após uma cuidadosa renovação do mosaico de tesselas douradas, ele se juntou aos outros seis anjos que observam a multidão de peregrinos que se aglomera na famosa basílica, uma das mais antigas da cristandade.

Com as mãos abertas em direção ao local de nascimento de Jesus, o Sétimo Anjo recuperou toda a sua beleza original e protege, com suas asas, os habitantes de Belém.

Blessed Labour

Um trabalho abençoado

Numerosos olivais se estendem ao norte e ao sul de Jerusalém. Após um longo dia de colheita, um raio de sol ilumina o rosto desta Palestina. Sua atitude natural, cheia de graça, nos remete a uma espécie de atemporalidade bíblica. Esta imagem também pode lembrar o profundo apego do povo palestino à sua terra. Embora a oliveira seja um símbolo essencial da identidade palestina e de seu patrimônio, também é muito importante para a economia local, pois muitas famílias dependem da produção de azeite para a sua subsistência.

Nas últimas décadas, mais de um milhão de oliveiras e centenas de milhares de árvores frutíferas foram arrancadas para facilitar o estabelecimento das colônias israelenses. Restrições de colheita foram impostas nas “zonas de segurança”, durante toques de recolher ou por causa de ataques perpetrados por colonos. Alguns ativistas pela paz, como os Rabbis for Human Rights, no entanto, prestam assistência às comunidades palestinas afetadas pela destruição de plantações agrícolas. Mas os fellahin (camponeses) sofrem múltiplas pressões para vender suas terras. Incapazes de lidar com redefinições cadastrais, procedimentos legais perniciosos ou ordens militares, eles também podem ser radicalmente expropriados.

Com seu balde cheio de azeitonas frescas, esta “madonna” personifica um ato de resistência, o campo sorridente e um trabalho abençoado. Ela é da região de Hebrom. Hebrom é uma das cidades mais antigas do país e um lugar sagrado para Judeus, Cristãos e Muçulmanos, pois é onde se encontra o túmulo de Abraão. A oliveira e seu azeite são mencionados na Torá, no Evangelho e no Alcorão. Por milênios, esta “árvore de luz”, como os camponeses a chamam, representa um símbolo de vida e de paz.

Heterotopia

Heterotopia

Isolada num pico rochoso, a silhueta da mesquita do profeta Samuel é um marco importante ao norte de Jerusalém. Foi, desde a época de Saladino, um dos polos que permitiam um diálogo fecundo entre Judeus e Muçulmanos. Deste promontório, batizado de “Mont Joie” (Monte Alegria) pelos Cruzados, os Ingleses capturaram por sua vez a cidade em 1917. Sob ocupação israelense desde 1967, a vila histórica foi destruída. Hoje é um enclave, onde a vida dos seus últimos habitantes é difícil e onde, obviamente, encontros já não são possíveis. Esperemos, no entanto, mesmo que pareça idealista, que o espírito ligado a este recinto elevado possa um dia convocar novamente os sábios para se tornar novamente uma “heterotopia”.

Ineffable Friendship

Amizade inefável

As paredes das ruelas de Jerusalém são decoradas com grafites populares, incluindo representações da Cúpula da Rocha. Essas marcas geralmente expressam um apego à cidade-santuário (ribât).

Aqui, as crianças que se expressam simplesmente com a “linguagem do coração” quiseram marcar as muralhas com uma declaração de amizade eterna a um certo Yusuf (José).

The Blue Hour

A hora azul

Carregando em si a memória da cidade, os anciãos seguem, com o ressoar das batidas de suas bengalas pelas vielas que se esvaziam no final do dia. É a hora azul. Num estranho silêncio, passagens e becos sem saída gradualmente se apagam. Enquanto as fachadas de pedra ainda permanecem quentes, até o cair da noite fria e negra que envolve o país, apenas orações sobem ao céu pontilhado de estrelas impassíveis.

* Rihla : movimento, marcha, excursão, passeio, viagem, peregrinação, itinerário, crônica, diário de viagem… Este último significado deu nome a um gênero da literatura islâmica constituído por observações relativas à geografia, patrimônio, sociedades e seus costumes. Viagens iniciáticas e criativas, essa prática de busca pelo conhecimento se perpetua desde a Idade Média, por meio da mistura de descrições, anedotas, opiniões ou impressões pessoais, num cenário de realismo retirado da vida.

Altair Alcântara viaja como cidadão do mundo para fotografar suas diferentes culturas. Sua primeira visita a Jerusalém ocorreu a cerca de trinta anos. As fotografias deste ensaio foram tiradas durante uma viagem iniciada em 2015 e concluída em 2018. A concepção de um livro foi finalizada em 2020. Foi publicado em 2021 pela editora Maisonneuve&Larose / Hémisphères Éditions, Paris.

Maisonneuve & Larose / Hémisphères Éditions
Jérusalem (Hémisphères Éditions)

Jérusalem – un essai photographique
Maisonneuve&Larose / Hémisphères Éditions
ISBN  978-2-37701-102-5

Continuar a viagem, comprar o livro: edição bilíngue francês/inglês, 160 páginas, 28€ (frete grátis para o mundo todo; encomenda na Maisonneuve&Larose / Hémisphères Éditions)

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